ficcionados logomarca

ficcionados logotipo

Anatomia >

Ponto Sem Retorno

30 de Maio de 2018
AutorKaio Gabriel7min de leitura

Ponto sem retorno é aquele evento na história que muda para sempre a vida do protagonista: não importa o que ele faça, jamais vai conseguir voltar atrás.

 

Jamais. Isso é importante.

 

Claro que numa história as personagens podem sofrer diversas mudanças, mas algumas podem ser revertidas. Se o protagonista cortou o cabelo e trocou de roupa, ainda é possível que ele volte a ter a aparência de antes, não é?

 

Agora se alguém próximo faleceu ou ele descobriu que tem uma doença degenerativa sem cura, aí as coisas ficam mais delicadas.

 

Só que esses exemplos também são casos extremos. Muitas mudanças transitam em uma zona em que a irreversibilidade depende muito da visão de mundo da personagem.

 

Se ela descobriu que é adotada, a revelação por si só não impede que a vida dela continue da mesma maneira de antes. Mas talvez ela já estava insatisfeita com a vida antiga e agora tem um motivo para deixar tudo para trás e ir procurar seus pais biológicos.

 

Ou seja, transformar uma mudança em um Ponto Sem Retorno depende muito de como você está contando a história.

 

Tá, mas por que devo me preocupar com isso?


 

1. A importância do Ponto Sem Retorno


Em The Story Grid, Shawn Coyne diz que várias propostas de roteiro seguem uma trama parecida com essa:

 

– Graduação;

– Protagonista tenta encontrar um trabalho significativo;

– Não encontra um trabalho significativo;

– Consegue um emprego de meio expediente;

– É promovido no emprego de meio expediente;

– Conquista mais sucesso nesse emprego;

– Abandona o emprego para voltar a procurar um trabalho significativo;

– Falha;

– Passa por uma grande pausa;

– Falha;

– Volta ao trabalho pouco significativo para nutrir relacionamentos significativos.

 

Se essas, e somente essas, forem as mudanças narradas, perceba que:

 

1- A história vai e volta sobre as mesmas complicações. Os supostos arcos narrativos trabalham os mesmos conflitos. Isso deixa o roteiro arrastado e dá pouca sensação de progresso ao leitor.

 

2- Os riscos são baixos e monótonos. Para continuar alimentando o interesse, o roteiro precisa ter complicações progressivas. Não só é bom variar os tipos de conflitos, como também eles precisam ficar cada vez mais complexos. O que é que seu protagonista está arriscando? É algo que se perdido, ele jamais terá de volta?

 

E aqui chegamos ao ponto principal:

 

3- Não há um Ponto Sem Retorno. Para enfatizar essa ausência, você pode ver que a história começa e termina no mesmo lugar…

 

Claro que um bom escritor pode trabalhar com isso e apresentar essas mudanças de forma mais dramática. Ele até pode usar esses eventos como pano de fundo para questionar a existência humana e te fazer refletir sobre o real propósito de fazermos o que fazemos.

 

Mas aí estaríamos falando de Literatura “com L maiúsculo”, e não de literatura comercial. E sob o prisma de roteiro, as mudanças apresentadas aqui em cima não funcionam.

 

Beleza, e como corrigir isso?

 

O melhor é repensar os conflitos e fazer eles ficarem cada vez mais arriscados. E uma maneira de ter certeza que você atingiu um risco limite é inserindo um Ponto Sem Retorno.


 

2. O “Gancho Sem Retorno” não é um substituto


Pelos exemplos lá da introdução (o falecimento de uma pessoa próxima ou a descoberta da adoção), o Ponto Sem Retorno parece servir bem como gancho inicial. Afinal, um gancho inicial forte pode mesmo representar uma mudança permanente na vida do protagonista.

 

Se for pensar na Jornada de Herói, esse é o momento em que ele é removido do seu mundo antigo e precisa se ajustar ao novo. E para que a história engrene, não há volta.

 

É aquele exemplo clássico: Harry descobre que é um bruxo e é tirado do mundo dos trouxas. Isso não só é o gancho da aventura como representa uma mudança definitiva na vida de Harry.

 

Mas seria realmente disso que estamos falando aqui?

 

Eu gosto de pensar que o gancho inicial representa a “mudança tema” da história, aquela que vai refletir em todas as outras.

 

Você deve lembrar que há duas maneiras de se olhar para um roteiro: uma macro, enxergando início meio e fim como uma unidade só, e uma micro, analisando cada arco, sequência e cena individualmente e, portanto, com suas próprias mudanças.

 

De maneira semelhante, eu enxergo o gancho inicial como uma mudança macro. Embora a perturbação seja abrupta, o protagonista vai se adaptando a ela durante toda a história.

 

Nesse raciocínio, o Ponto Sem Retorno seria o desdobramento mais severo dessa adaptação. O que não significa que ele precisa ser uma consequência direta do gancho inicial.

 

Se estamos falando de um romance, o gancho inicial é o momento em que o protagonista conhece o amor da sua vida. Então ele vai se adaptando à existência dessa pessoa, eventualmente eles ficam juntos e felizes, até que… [preencha esse campo com algum evento catastrófico].

 


3. Em que parte do roteiro inserir o Ponto Sem Retorno?


Pois bem, o Ponto Sem Retorno é apresentado em livros de roteiro como um evento que ocorre do meio pro fim da história. É uma mudança intensa, que altera o ritmo da narrativa e renova o interesse do leitor.

 

Se você estiver trabalhando com a estrutura de três arcos, há quem diga que ele deve aparecer no meio do segundo: o também chamado de Ponto Central (quem diria, hã?). Como o segundo arco é o mais longo, é bom ter uma carta na manga para manter em alta o interesse do leitor.

 

Agora fazer do Ponto Central um Ponto Sem Retorno fica a seu critério. Mas já que colocamos ele na conversa…

 

É aconselhado que o Ponto Central marque a história, mesmo que de forma simbólica.


…é nesse ponto que Katniss faz um funeral para Rue e levanta a mão no gesto clássico de saudação ao povo de Panem, símbolo da rebelião. Essa é a primeira vez que ela deixa a entender que seria uma futura rebelde.

 

Há quem defenda que a marca deva ser exatamente essa: o momento em que o protagonista aceita a sua nova vida e a declara para os outros.

 

Beleza, então é importante apresentar uma mudança no Ponto Central. Mas se ela não for o Ponto Sem Retorno, onde então colocá-lo?

 

Outros roteiristas defendem que ele deve aparecer entre o fim do segundo arco e o início do terceiro. Assim o terceiro arco seria representado pelo protagonista lidando com as consequências dessa “mudança mais intensa”.


Aqui o Ponto Sem Retorno é quando Morgana perde a virgindade com Artur sem saber que ele é seu irmão. São as consequências disso, a gravidez e a descoberta de quem realmente é o pai, que culminam na decisão final e mais importante que ela faz no livro.


…temos a morte de Robert acontecendo mais ou menos como Ponto Central. Ela sem dúvida é irreversível e impactante. Só que o roteiro vai mais fundo e acaba resultando na execução do Ned. É ela que eu classificaria como o Ponto Sem Retorno, o momento em que não resta mais dúvida de que a vida dos Starks nunca mais vai ser a mesma.


 

Calma que tem mais


 Se estamos falando de mudanças, acho interessante dar uma conferida na Curva de Kubler-Ross. Apesar do nome soar intimidador, não é nada complicado.

 

Ela mapeia as etapas pelas quais uma pessoa passa quando está se adaptando a algo. Bem útil para dosar as reações do seu protagonista frente às mudanças. E de quebra ainda pode dar umas ideias de conflitos extras de acordo com a etapa vivenciada.

 

Mas isso fica para semana que vem… 


Sobre o Autor
Author
Kaio Gabriel
Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas.
Suas histórias:SITE