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A Estrutura de Três Atos

17 de Abril de 2019
AutorKaio Gabriel25min de leitura

Esse é o modelo de roteiro mais usado por aí, tanto em livros quanto em filmes. E é tão simples quanto o nome sugere: uma história dividida em três partes.


Essa simplicidade faz dele o ideal para quem tá começando a se descobrir na escrita. Agora não pense que, por isso, a estrutura de três atos seja somente para amadores. 


Um modelo de roteiro, qualquer que seja, é só uma forma de organizar as ideias que você já teve, te forçando a pensar em alguns pontos críticos para que a história funcione. E se ela funcionar, não há amadorismo. Na verdade, esse modelo é usado por blockbusters e best-sellers em todo o mundo.


Até porque, no fim, é só isso o que queremos: uma história que funcione.



As Três Partes


Há quem as chame simplesmente de “início, meio e fim”, mas eu prefiro “preparação, confronto e resolução.”


Em termos de tamanho, estima-se:


Preparação — 25%

Confronto — 50%

Resolução — 25%


Os números são bons para se ter uma ideia, mas não precisa se apegar a eles.


Mais importante é ter em mente que essas três unidades devem funcionar de maneira independente. Isso significa que cada ato também precisa ser pensado com um início, um meio e um fim.



O que marca o fim de um ato e o início de outro são os Pontos de Enredo (do inglês, Plot Point), quando todo o desenvolvimento do ato é resumido por uma escolha do protagonista.


Uma história nada mais é do que uma série de escolhas e consequências, mas nos Pontos de Enredo devem aparecer as escolhas mais importantes (ao menos, antes da decisão final).


Então, por ora, o que temos é:


  1. Sequência de eventos que perturbam o mundo do protagonista, resumida ao fim por uma escolha.
  2. Sequência de confrontos progressivos, resumida ao fim por outra escolha.
  3. Sequência de eventos que levam ao clímax. E então, é bom resumir a trama inteira com uma escolha final, mas logo falo mais sobre isso.



Esclarecimento: Os 7 Pontos Críticos

Embora os pontos ilustrados na figura ali em cima acompanhem a Estrutura de Três Atos, eles podem ser usados à parte. Tanto que existe algo chamado de “Estrutura dos Sete Pontos”, que ignora os atos e usa os pontos na ordem em que aparecem para checar se a história está nos trilhos. 


E é por esse motivo que você vai ver exemplos aqui que não seguem os três atos, mas ilustram muito bem um ponto ou outro.



Ato 1: Preparação


Aqui o “estado padrão das coisas” é apresentado, então um evento inesperado acontece e o protagonista, passando ou não por uma etapa de aceitação, reage.



Apresentação

O estado padrão das coisas é definido respondendo perguntas como:


  • Quem é o protagonista?
  • Como é o ambiente? Em termos físicos, sociais, econômicos…
  • Quem são as pessoas que cercam o protagonista? Amigos? Familiares? Rivais?
  • O que ele costuma fazer? Por que ele faz o que faz?
  • O que ele pensa a respeito? Está feliz? Realizado? Angustiado?


Agora cuidado. É muito fácil cair em um problema de exposição no início de uma história, afinal, é muita informação para manejar partindo do zero… E o início é crucial.


Se escritores desconhecidos como eu e você não fisgarmos o leitor cedo, ele vai pôr o nosso livro de lado e nunca mais vai nos dar uma chance.


Por isso eu vou me prolongar um pouco nesse ato. Primeiro, fique atento a essas observações:


Eu entendo, o leitor ainda não sabe quais são suas inúmeras ideias maneiras e você quer transmiti-las rápido para que ele fique tão empolgado quanto você.


Mas dá uma olhada em um livro hipotético que começa assim:


Meu nome é Júlia, tenho 16 anos e cresci em Nasle. Esse é um planeta do terceiro quadrante de Guar-342, que fica a uns doze mil anos-luz do nosso setor de origem, o do Sistema Solar. Meus pais morreram em uma implosão glacial quando eu tinha cinco anos, então fui criada pela minha avó, dona Margarete. Ela é uma veterana da Guerra Interdimensional de Vocrax e, apesar de ter se destacado como fuzileira espacial, hoje em dia tudo o que faz é reclamar da coluna e pegar no meu pé. A Guerra Interdimensional de Vocrax foi aquele conflito que aconteceu entre a Federação Troliete e a União de Guadalar, quando o Almirante Dal Cruz dos trolietes decidiu anexar a lua de Vocrax à Federação, mantendo como refém o sobrinho de Polimaro, líder da União…


Enfim, acho que você já entendeu. Nesse ritmo, quando o leitor terminar a primeira página, a maioria dos detalhes vão ser esquecidos e ele só vai ficar com algumas informações vagas na cabeça. 


Ele ainda não sabe onde a cena começa, se é que já começou, muito menos para onde ela pode ir e, portanto, não tem nenhuma expectativa imediata. E se você não criar uma expectativa imediata rápido, vai apostar demais na motivação inicial do leitor; o que para a maioria significa que aquela será a única página lida.


Com expectativa imediata quero dizer algo tão simples como duas pessoas caminhando por um corredor. A expectativa mínima que você cria aqui é algo como “para onde essas pessoas estão indo?”.


Além disso, escolha com cuidado o que apresentar e sempre dê um contexto. Ao invés de puxar o assunto da Guerra Interdimensional do nada, por exemplo, a Júlia podia estar visitando um museu sobre a Guerra.


O Thiago fala muito bem sobre isso nos nossos artigos sobre exposição:


Como decidir o que entra e o que não entra na sua história

Quando e como passar informações ao leitor


Toda. Não há exceção.


Tô sendo enfático aqui para você não cair naquele pensamento de “ah, todo começo de livro é meio parado e o leitor já espera por isso mesmo…”


Se você quiser manter a tensão baixa no início, tudo bem, mas isso não significa que o ritmo deva ser constante. O interesse do leitor depende das oscilações, depende de um ou outro parágrafo conseguir se destacar entre os outros, entende?


E o ponto de virada é esse destaque. É quando uma nova informação causa surpresa no leitor. Há inúmeras maneiras de se trabalhar com isso, e eu sei que tô devendo um artigo com esse tema… prometo que ele não demora.


Por ora, pense que aquilo que é surpreendente para o leitor não precisa ser surpreendente para as personagens. E isso é ainda mais verdade no início da história, quando o leitor não conhece nada nem ninguém. Então use isso ao seu favor.


Pode ser que lá na terceira cena, você decida revelar que o protagonista tenha uma doença degenerativa e que só lhe restam mais três semanas de vida… Mas isso o protagonista já sabia e, inclusive, justifica ações estranhas que ele tomou nas cenas anteriores.


Vê? Com um truque simples, você já criaria logo na largada um daqueles momentos “a-ha!”.


Quase sempre o estado padrão das coisas está relacionado com a rotina do protagonista. E apresentar uma rotina é delicado.


Acordar, tomar banho, comer, ir pra escola/trabalho… Se essas atividades não tiverem nada de incomum, isso é um tiro no pé. Mesmo que você use isso para apresentar outras personagens, se o diálogo for banal, é outro tiro no pé. E mesmo se um detalhe ou outro for incomum, ainda assim, é perigoso.


Então inverta o foco: faça do incomum o principal da cena e deixe o que é banal nos detalhes. Embora a maioria das coisas banais você não precise nem mesmo citar.


A bem da verdade, essa três observações valem para todo o resto da história, mas é especialmente importante você se ater a elas no início, beleza?


Como a primeira ideia que temos dificilmente é a melhor, um bom exercício é planejar pelo menos uns três inícios diferentes. E eu não tô falando aqui de todo o ato, mas só das primeiras cenas.


E aí, com o estado padrão das coisas apresentado, chegamos ao primeiro ponto crítico…



Gancho (Hook ou Inciting Incident)

Esse é o distúrbio que vai fazer toda a história acontecer. E um bom distúrbio precisa forçar o protagonista a abrir mão do “estado padrão das coisas” para ir buscar algo novo. Isso pode acontecer de duas maneiras:


1. O protagonista está satisfeito com o que tem: O gancho faz ele perder algo de valor ou prevê uma perda futura.


Os pais de Kvothe e toda a trupe dos Edema Ruh são assassinados pelo Chandriano. É o clássico “perdi tudo e quero vingança”.


Mas essa perda não precisa ser externa. O protagonista pode ter sua honra como um valor importante e algo que a ameace já é o suficiente.


É claro que um roteiro com vários protagonistas acaba disparando vários ganchos. Mas olhando para história como um todo, o gancho raiz é o convite que Robert faz a Ned para ele se tornar a Mão do Rei. E esse não é o tipo de convite que se pode recusar.



2. O protagonista está insatisfeito com o que tem: O gancho é uma oportunidade de mudar de vida.


Como exemplo temos a fada madrinha aparecendo ou a icônica carta de Hogwarts chegando pelo correio.


Só que essa oportunidade de mudar de vida pode aparecer de forma indireta, como em um evento que altera a forma de pensar do protagonista.


O encontro de Montag com Clarisse MacClellan, logo na primeira cena, é recheado de perguntas inocentes que vão ao mesmo tempo apresentando o mundo distópico e colocando perguntas na mente de Montag que ele nunca tinha feito. E o diálogo culmina em um gancho sutil:


“ — Boa-noite! — [ela] foi para casa, mas pareceu lembrar-se de algo e voltou-se, olhando para ele com admiração e curiosidade. — Você é feliz? — perguntou.

— Eu sou o quê? — gritou ele.

Mas ela se fora, correndo sob o luar. A porta da casa fechou-se suavemente.

— Feliz! Mas que absurdo!

Montag parou de rir.”


Pode ser também que o protagonista tenha uma ambição grande e, enquanto não alcançá-la, não vai se sentir satisfeito; o que não significa que ele tenha uma vida infeliz.


Clarice quer fazer seu nome no FBI e informações para solucionar o caso de Buffalo Bill irão ajudá-la nisso. É à procura delas que Clarice é enviada para interrogar Hannibal Lecter.


E às vezes, independente da satisfação inicial, o gancho promove tanto uma perda quanto uma oportunidade. O próprio exemplo de A Guerra dos Tronos se encaixa aqui, mas só pra forncer mais um:


Morgana é levada a Avalon. Ela é forçada a deixar a família para trás (perda) e se tornar uma sacerdotisa (oportunidade).



Comprometimento

O gancho pode ou não resultar em um comprometimento do protagonista. Se resultar, o roteiro já vai direto para o Ponto de Enredo 1.


Mas boa parte das vezes, o protagonista fica em choque, nega ou ignora o distúrbio. Então é preciso de um tempo para digerir o que aconteceu. 


Em outros casos, por mais que o protagonista queira se comprometer, não sabe o que fazer. E aí, precisa de um tempo para descobrir ou para uma ajudinha aparecer.


O objetivo aqui é preparar o terreno para se ter um bom Ponto de Enredo. Isso pode vir com uma conversa, uma reflexão interna ou uma força maior que agrava o gancho.


As corujas vão chegando, as cartas vão acumulando, os Dursley viajam com Harry para longe de casa… e no fim, Hagrid aparece.


Mildred, a esposa de Montag, tem uma overdose de tranquilizantes e, depois de salva, não quer discutir o assunto. Montag percebe não só a distância que existe entre eles, mas que não sabe nada sobre a esposa, nem mesmo lembra como se conheceram. Então ele se dá conta de que a única coisa que ama é queimar livros. A infelicidade se instala e o gancho é absorvido.



Ponto de Enredo 1 (Plot Point)

O protagonista decide tomar a dianteira e fazer algo a respeito. E essa escolha é o que impulsiona todo o segundo ato.


É claro que quando falo em escolha, não me refiro a uma escolha passiva, no campo das ideias… Ela precisa vir acompanhada de uma ação. E é a consequência imediata dessa ação que fecha o primeiro ato.


Um bom primeiro Ponto de Enredo tem essas três características:


I. Parte genuinamente do protagonista.

II. Coloca-o de vez na jornada sem chance de retorno.

III. Renova sua determinação em atingir seus objetivos.


A ação mais simbólica é a travessia da plataforma 9 3/4. Harry vê os outros passando e, ainda um tanto inseguro, corre em direção à parede… então embarca de vez para Hogwarts.


Em uma de suas rondas, Montag rouba um livro ao invés de queimá-lo. Isso marca a sua desconfiança no sistema e a percepção de que é impossível ser feliz seguindo as regras do jogo.


Clarice resolve o código de Lecter e chega em um depósito, onde encontra a cabeça de uma das vítimas de Buffalo Bill. Ela passa a acreditar que é capaz de resolver o caso.



Ato 2: Confronto


Apesar de ser o maior dos atos, ele pode ser resumido em duas palavras: conflitos progressivos.


Isso significa que o conflito que vier depois precisa ser mais complicado, mais arriscado ou mais significativo do que o anterior.


Falei bastante sobre isso nesse artigo aqui:


7 Dicas para turbinar os conflitos de sua história


Mas como esse é um ato longo, ficar empilhando um conflito em outro pode fazer o roteiro dar voltas sem progresso ou cair em um beco sem saída.


E é justamente para te ajudar a gerenciar essa sequência que aparecem os próximos pontos críticos…



Pinça 1 (Pinch Point)

As pinças são uma mudança súbita na gravidade dos conflitos, são momentos de reorientar o roteiro e renovar o interesse do leitor.


Até então, o segundo ato apresenta um protagonista que ainda está descobrindo a região fora da sua zona de conforto. E ele costuma reagir ao que acontece sem muita consciência do que é realmente importante fazer para chegar no seu objetivo.


Aí acontece um evento, a Pinça 1, que além de agravar a situação, entrega pistas que apontam o caminho certo.


Muitas vezes, esse evento também serve como um lembrete do poder do antagonista.


“Trasgo nas masmorras!” Esse é o conflito mais perigoso até então, e é a primeira prova de que há um antagonista por perto, quem quer que tenha deixado o Trasgo entrar.


Harry também nota a perna machucada de Snape e deduz que ele causou a confusão para tentar passar pelo cão de três cabeças. Mesmo que se prove errado, isso motiva Harry a descobrir o que está acontecendo.


Montag finge estar doente e falta o trabalho, mas seu chefe, Beatty, lhe faz uma visita. Sua suspeita de que Montag roubou um livro é evidente, mas ao invés de ameaçar, Beatty diz que é comum um bombeiro sentir curiosidade pelos livros e reforça os motivos dos livros destruírem a sociedade.


A conversa serve para dar mais peso às regras do sistema, o verdadeiro antoganista, e despertar em Montag o desejo por uma sociedade diferente. 


Essa é a reorientação: antes Montag só escondia uns livros em casa, agora ele vai em busca de alguém que possa ajudá-lo a mudar as regras.


Clarice encontra um casulo na garganta de uma das vítimas, o que serve ao mesmo tempo como pista para o caminho certo quanto caracteriza o antagonista. A sequência pós-descoberta conta ainda com uma cena sob o ponto de vista de Buffalo Bill, quando a próxima vítima é raptada.



Ponto Central (Mid Point)

A partir da Pinça 1 as coisas vão se acertando. O protagonista supera um desafio atrás de outro, ganha confiança e parece que nada mais vai pará-lo. 


Então… boom! Chega o Ponto Central, a maior disrupção depois do distúrbio no primeiro ato. Há inclusive quem o considere um segundo gancho. Em termos de impacto até pode ser, mas suas características são bem diferentes.


O Ponto Central:


  • Apresenta uma falha, de preferência provinda de uma ação do protagonista.
  • Ameaça o objetivo principal e instala dúvidas sobre o caminho seguido desde a Pinça 1.
  • Deixa evidente as novas responsabilidades do protagonista.


Apesar de lá no Ponto de Enredo 1 o protagonista aceitar a jornada, ele só descobre o seu papel na Pinça 1. E agora no Ponto Central é quando ele tem consciência do que esse papel significa e aceita as responsabilidades.


É isso que você deve martelar aqui: o protagonista aceita sua nova identidade, com todos os prós e contras.


Com a ajuda de Hermione, Harry tenta libertar o dragão ilegal de Hagrid, mas é pego pelo Finch e levado para detenção. 


Montag recita um poema para um casal amigo de Mildred e espera que eles fiquem motivados a debater o tema. Porém isso não acontece e Montag brada ofensas ao casal, fazendo escárnio de suas vidas vazias e corrompidas. Eles vão embora, o homem, furioso, e a mulher, em lágrimas, e Mildred se tranca no banheiro, tomando várias pílulas de tranquilizante.


A cabeça que tinha sido encontrada no depósito não era de uma vítima de Buffalo Bill. Clarice sente que foi usada e é forçada a interrogar Lecter de novo. Dessa vez, ele concorda em falar só com uma troca: uma informação de Bill por uma informação pessoal de Clarice. Marcando o auge de sua fé no FBI, ela aceita.



Pinça 2

Assim como a primeira Pinça, essa eleva a gravidade dos conflitos e reorienta o roteiro. Mas aqui isso acontece lembrando o protagonista dos riscos em jogo.


O importante é fazê-lo questionar o quanto está disposto a pagar para alcançar o objetivo final. E isso é feito com algum tipo de perda.


Como consequência, a história se encaminha para o seu momento mais baixo. É aqui que geralmente aparece o “Tudo Está Perdido” (falo sobre isso na seção de temperos para um roteiro inesquecível).


Na Floresta Proibida, Harry encontra Voldemort bebendo o sangue de um unicórnio e é atacado, mas se salva com a ajuda de um centauro. Aqui ele descobre que Voldemort é quem está interessado na Pedra Filosofal e que Hagrid, bêbado, entregou a informação para roubá-la.


Montag vai peitar Beatty no corpo do bombeiros, ajudado pelo Professor Faber, que lhe aconselha o que fazer através de um ponto eletrônico. Mas chegando lá, Montag é colocado contra a parede. Antes que cedesse e admitisse o roubo e a leitura de livros, o alarme soa e os bombeiros se preparam para o trabalho. O alvo é a sua casa.


Lecter é transferido para Memphis e Clarice é enviada junto. Ela vai até o apartamento da filha do senador para tentar encontrar algo, mas a esposa chega e a acusa de roubo. Clarice, então, deve largar o caso se não quiser ter a carreira arruinada. Mas ela faz ainda uma última visita a Lecter, que termina momentos antes dele escapar.



Ponto de Enredo 2

O protagonista descobriu, avançou, apanhou, amadureceu… e apanhou mais. Depois de chegar no fundo poço, ele precisa fazer uma escolha que sintetiza o que aprendeu ou que deixou de aprender.


Lembrando que essa escolha vem acompanhada de uma ação e a consequência dessa ação é o que fecha o segundo ato.


Um bom Ponto de Enredo 2 tem essas três características:


I. Parte genuinamente do protagonista.

II. Resume sua nova identidade. O ideal é que a escolha seja uma que o seu velho “eu”, anterior ao gancho, jamais teria feito.

III. Resulta em uma pequena vitória, algo simbólico que marca o retorno ao jogo, mas deixa claro que ainda há muito o que fazer.


Harry passa pelo cão de três cabeças e segue para apanhar a Pedra Filosofal antes de Voldemort.


Montag, traumatizado por ter sido descoberto e ser obrigado a atear fogo na própria casa, cede às provocações de Beatty e vira a mangueira na sua direção (ela jorra fogo ao invés de água). Isso é feito na frente de todos e, não tendo mais o que esconder, Montag inicia sua fuga.


De volta a Ohio, Clarice se dá conta que Buffalo Bill conhecia a primeira vítima antes de raptá-la. A essa altura, a fé de Clarice no FBI é baixa e, correndo o risco de ser demitida, continua a investigação por conta própria.



Ato 3: Resolução


Os conflitos agora acontecem sem pausa até culminarem no clímax. Em seguida, a tensão vai caindo conforme as últimas pontas se amarram.


Como se trata só de desenrolar o que já foi construído, é aconselhável que não seja introduzido nenhum conceito e nenhum personagem novo.



Aumento dos Riscos

A principal mudança entre os eventos do segundo ato e os do início do terceiro é o ritmo da narrativa. Até então, o protagonista tinha espaço para se recompor antes de partir para o próximo desafio, mas agora não tem mais. É uma sequência de eventos onde um conflito dispara outro pior, sempre elevando a tensão e aproximando o clímax.


Harry, Rony e Hermione passam por uma sucessão de desafios: visgo do diabo, chaves voadoras, xadrez de bruxo e as sete poções. No fim, Harry, sozinho, chega à última sala.


A polícia organiza um mutirão para caçar Montag. Ele enfrenta os cães de caça mecânicos, esconde livros na casa de um colega bombeiro e se vê obrigado a atravessar uma autoestrada (os carros correm a velocidades altíssimas e atropelar pedestres é um esporte comum).


Por um lado temos Clarice seguindo pista atrás de pista; por outro, temos o FBI descobrindo a identidade de Buffallo Bill e possíveis localizações; e ainda temos a filha do Senador tentando escapar: ela faz a cadela de Bill cair no mesmo poço onde estava e a usa como refém, pedindo para usar o telefone. Mas ao invés do telefone, Bill sobe para pegar uma arma e…



Clímax

O ápice da tensão. A última barreira até o o grande objetivo ser atingido e, por isso, todas as fichas são colocadas na mesa.


O Clímax pode apresentar uma ou mais das seguintes abordagens:


  • Confronto direto contra o antagonista.
  • Confronto contra a maior fraqueza. Você provavelmente já explorou isso em algum conflito anterior, e aqui é a chance do protagonista mostrar sua superação.
  • Escolha difícil. Pra funcionar, essa escolha tem que fazer o leitor se contorcer, ele precisa sentir o dilema antes mesmo de saber a reação do protagonista.
  • Revelação que muda por completo a visão do leitor sobre a história. Essa é difícil de implementar, geralmente aparece quando o roteiro já é todo montado para esse momento. Sexto Sentido e Clube da Luta, estou falando de vocês.


Harry descobre que Quirrell é quem está servindo Voldemort e, depois de conseguir a Pedra Filosofal através do espelho de Ojesed, o confronta.


Um novo e melhorado cão de caça mecânico é levado até a área. Montag se veste com as roupas de Faber, também pede para ele incinerar tudo o que foi tocado, esfregar o resto com álcool e ligar os regadores no jardim. Isso confunde o faro do cão de caça e ajuda Montag na corrida até o rio que cerca a cidade. A travessia não marca só sua fuga da lei, mas de tudo o que a sociedade representa.


Clarice bate na porta da Sra. Lippman, uma conhecida da primeira vítima de Bill. Quem atende é o próprio, o que Clarice descobre assim que enxerga uma mariposa na casa. Bill percebe que foi descoberto, os dois se enfrentam e Clarice consegue matá-lo.



Desfecho

O protagonista alcança ou ressignifica o seu objetivo. A tensão diminui e, se houver ainda conflito, não é mais tão desafiador quanto o clímax. Por fim, é apresentando ou subentendido um novo “estado padrão das coisas”.


O mais importante é cumprir toda promessa em aberto. Mesmo que seja o primeiro livro de uma trilogia, você precisa cumprir promessas importantes. 


Nesse caso de séries, aproveite essa etapa de planejamento para definir quais promessas vão ficar pro próximo volume e quais vão ser resolvidas; então quando for escrever, enfatize as que vão ser fechadas agora. Falei mais sobre isso no artigo sobre cliffhanger.


Harry acorda na ala hospitalar. Dumbledore explica o que aconteceu e diz que a Pedra foi destruída. Por fim, a Grifinória ganha a Taça das Casas.


A polícia não pode admitir que perdeu o rastro e assassina um inocente em frente às câmeras. Longe dali, Montag encontra um grupo de foragidos, que vivem afastados das cidades, memorizando a maior quantidade de livros na esperança de um dia poderem republicá-los.


A filha do senador é resgatada com vida e Clarice faz seu nome. A última cena é de Lecter desfrutando da vida em um hotel e escrevendo cartas. Uma delas é para Clarice.



Temperos para um roteiro inesquecível



O Ponto Sem Retorno

Como já disse, o comprometimento com o gancho é um passo sem volta. Mas além do gancho é bom o roteiro apresentar um outro momento desses, mais marcante e dramático.


É comum usar o Ponto Central ou o Ponto de Enredo 2 como um Ponto Sem Retorno. Mas para entender melhor como essa escolha é feita, aconselho dar uma olhada no artigo que dediquei ao tema clicando aqui.



O Momento do “Tudo Está Perdido”

Como o nome sugere, esse é o momento mais depressivo da história. O protagonista não acredita mais que consegue ser bem-sucedido e pode até desistir da jornada. É um clamor desesperado por ajuda.


Embora não seja um Ponto Crítico, o “Tudo Está Perdido” amplia o constraste da história. E quanto maior o contraste, maior a sensação de progresso. Isso conquista leitores e não deve ser menosprezado.


Pois então, os Pontos Críticos trabalham com o vai e vem entre esperança e desespero. Só que uma boa história não trata só de altos e baixos, mas do quão fundo se vai em cada direção.


Pense nos dois momentos extremos: o mais perto que o protagonista fica do objetivo final e o mais longe. Se achar que deve reforçar o contraste, acrescente um “Tudo Está Perdido”.


Ele vem, claro, após uma falha. Como eu disse, é comum que venha após a Pinça 2.



A Escolha Final

Assim como o Ponto de Enredo 2 contrasta quem o protagonista era no início da jornada com quem ele se tornou, é legal colocar mais uma escolha no fim do terceiro ato para enfatizar essa diferença (e eventualmente agregar alguma mudança mais que possa ter ocorrido após o Ponto de Enredo 2).


Essa escolha pode vir tanto durante o clímax, o que cairia na abordagem que chamei de “escolha difícil”, quanto durante o desfecho.



Últimas Palavras


Só lembrando que nada do que está escrito aqui é uma lei intransponível. Esse modelo não deve enquadrar a sua ideia, pelo contrário, deve expandi-la. Use-o para perceber potenciais melhorias: talvez um Ponto de Enredo mais enfático ou uma Pinça para agitar as coisas naquele capítulo…

 

Além disso, caso esteja se descobrindo na escrita e se sentir limitado por todo essa planejamento, pode ser que essa não seja a sua maneira de escrever. Algumas escritores funcionam melhor sem planejamento, e o próprio Stephen King levanta essa bandeira. Para saber mais, veja Esqueça o outline e só comece.


E aí, pronto para escrever?



Sobre o Autor
Author
Kaio Gabriel
Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas.
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